Curadoria: expressão e função social

Texto publicado na revista eletrônica Studium n. 32

por Milton Guran *

As atividades de curadoria abrangem um campo muito extenso, tanto nos planos cultural e artístico quanto no comercial. “Curar”, nos ensina o dicionário, é cuidar, ter cuidado. E esse trabalho começa, quase sempre, por trabalhar o próprio artista ele mesmo. O artista é aquele que produz arte e isso é tudo que podemos exigir dele. É por isso que o curador tem tanta importância, porque ele é a ponte entre a crítica – ou seja, a reflexão intelectual sobre uma produção artística – e o mercado consumidor dessa arte – não só no sentido de compra a e venda da obra física, mas sobretudo no sentido mais amplo de circulação social dos bens culturais.

Na condição de mediador cultural, o curador assume uma função social. Meu objetivo aqui é justamente tecer algumas considerações, dentro da área específica da fotografia, sobre o trabalho do curador como prática social. Nesse sentido, apresento um conjunto de observações que buscam, em primeiro lugar, apresentar o significado da curadoria em fotografia e, na sequência, delimitar o espaço social de uma atividade que vem se consolidando no âmbito da produção fotográfica.

É função da curadoria estabelecer um recorte na obra de um artista, tanto quanto imaginar um evento do porte do Mês da Fotografia de São Paulo ou o FotoRio, elaborar sua estrutura, identidade visual, estratégia de divulgação na mídia, articulação com os demais setores produtores de cultura no país e com o movimento fotográfico internacional. É também curadoria escolher os autores com suas respectivas obras e distribuí-los pelos diversos espaços de exposição, determinando que obras serão expostas e de que maneira.

Portanto, quer em um grande evento quanto no trabalho de programar um único centro cultural, ou administrar uma carteira de artistas, cabe ao curador sempre fazer uma ponte entre a obra e o público, viabilizando sua circulação. O curador é, sobretudo, um tradutor para o mercado como um todo e para o público em geral do sentido maior de uma determinada produção artística..


Preserva-se, pela presença desse mediador, a autonomia do fotógrafo face às demandas do mercado, bem como fica garantida a presença da produção fotográfica histórica e contemporânea nos espaços culturais de visitação pública. Além disso, nós, fotógrafos, sabemos que o nosso olho é mais penetrante que o nosso raciocínio e o talento do nosso olhar, muitas vezes, é bem maior do que a nossa capacidade empresarial e comercial.

Neste sentido, uma das mais importantes atribuições do curador é propor e organizar coleções públicas e privadas de fotografias, que se constituem, pela própria natureza mesmo da fotografia, em reservas culturais de formação de identidade, de autoconhecimento e de autocrítica de uma sociedade. As fotografias são instrumentos de construção de memória e suportes de imaginação.

Fotografia e memória, sabemos todos, andam juntas desde que a fotografia surgiu. A fotografia é, pela sua natureza, a memória do fato, o registro do referente. Esse aspecto, valorizado desde os primórdios, foi enunciado de forma definitiva pelo semiólogo francês Roland Barthes ao afirmar que a única certeza que a fotografia nos dá é que “ça a été”, ou seja, isso existiu, quer dizer, a “coisa” que está representada no papel algum dia existiu em algum lugar e pode impressionar aquela emulsão fotográfica com seus raios luminosos. Em outras palavras, “Vovó tinha bigodes”, “na Avenida Central só se andava de paletó e gravata” ou “eu já fui feliz um dia”.

A fotografia também é a memória da versão, ou seja, como os fatos foram vistos, como foram interpretados. E mais ainda: já que fotografar é atribuir valor, então através do que se fotografa podemos inferir aquilo que uma sociedade considerava mais importante em determinada época. Podemos localizar e ver os valores que construíram uma determinada identidade social. Isso faz da fotografia um documento riquíssimo sobre a cultura de indivíduos, grupos sociais e até de nações como um todo.

Dentro desse universo de produção de sentido e atribuição de valor artístico aos objetos fotográficos, o curador define o espaço social de sua atividade. Isso porque propor a constituição de coleções, definir temas e enfoques, ordenar, classificar e disponibilizar imagens é também atribuir valor, interpretar sociedades, determinar aquilo que deve ser preservado como indicador da substância cultural de uma determinada sociedade. Portanto, toda curadoria reflete um propósito definido, estabelece valores e nunca é descomprometida. É uma espécie de manifesto estético e cultural – e, portanto, político – cujo critério deve ser transparente e explícito.

No entanto, trabalho do curador não se limita à reunião das peças, pelo contrário. Essas coleções só adquirem seu pleno sentido quando classificadas, ordenadas e disponibilizadas para consumo público. Há aí um enorme trabalho interdisciplinar a ser feito, antes que o curador possa dar o passo seguinte, que é o de proceder a recortes para dar visibilidade a conteúdos que talvez se percam no emaranhado de informações visuais de uma grande coleção. E seguir adiante, buscando a melhor forma de divulgar esse acervo, em exposições permanentes, ou temporárias, através de meios eletrônicos ou pela publicação de livros, cartazes, e outras peças promocionais.

Vale enfatizar, por fim, que o trabalho do curador se dá em pelo menos duas frentes principais: na análise crítica da obra e seu contexto de produção; e a na recepção desta obra pelo consumidor, que vai do colecionador dedicado, freqüentador de galerias privadas, ao grande público dos museus e centros culturais, e agora também da internet. Neste trabalho, o curador propõe recortes em conjunto de obras que talvez não tenham ocorrido sequer ao próprio artista, associa obras que podem ser até contraditórias, traz à tona outras que, para muitos, podem parecer até irrelevantes, criando assim um conjunto que se constitui em uma proposta de diálogo entre o público e aquilo que marca um determinado momento cultural e artístico.

Podemos dizer, então, que a boa curadoria resulta em uma nova obra em si, expressão da própria visão do mundo do curador que, deste modo, estimula a reflexão tanto do público quando dos artistas, apontando caminhos e colocando em pauta novas questões.

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*Milton Guran é fotógrafo, mestre em Comunicação Social (UnB, 1991) e doutor em Antropologia (EHESS, França, 1996)., com pós-doutorado na USP (2004-2004). Foi um dos fundadores da AGIL Fotojornalismo (Brasília, 1980) e fotógrafo do Museu do Indio / Funai (1986 – 1989). Ganhador da Bolsa Vitae de Artes (1991) e, por duas vezes, do prêmio Marc Ferrez da Funarte. Em 2016, foi contemplado no programa Rumos Itaú Cultural – http://acervoaguda.com.br/. Seus trabalhos fazem parte das coleções MASP-Pirelli, do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAR – Museu de Arte do Rio e da MEP – Maison Européenne de la Photographie, dentre outras,  públicas e privadas. Autor de Linguagem Fotográfica e Informação (2005, 3ª ed.) e Agudás – Os Brasileiros do Benin (2000), dentre outras obras e artigos no campo da fotografia e da antropologia. Curador na área de fotografia, é um dos coordenadores do FotoRio e  vice-presidente da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil

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