Homenagem a Sergio Jorge

Em homenagem ao grande fotógrafo Sérgio Jorge, que nos deixou na madrugada de hoje, vítima do Covid 19, a RPCFB publica o texto de Rubens Fernandes Junior abaixo:

A fotografia brasileira ficou mais pobre. Perdemos o grande e generoso Sergio Jorge. Há poucas semanas marcamos um almoço para nova entrevista. Juntos gravamos muitas conversas para um novo livro. Entre junho e agosto de 2014, a Casa da Imagem, sob o comando de Henrique Siqueira, reuniu pela primeira vez 100 fotografias de Sérgio Jorge e dedicou integralmente seu espaço não só para fazer uma homenagem mas, principalmente, para dar a exata dimensão da sua importância para a história da fotografia brasileira. Tive o prazer de fazer a curadoria.

“SERGIO JORGE – múltipla trajetória” – Desde o início, no Foto Cine Clube de Amparo, em 1952, até hoje no Jorge’s Estúdio, muitas imagens passaram pelos olhos de Sérgio Jorge, um dos grandes mestres da fotografia brasileira. Claro, nem todas as imagens se viabilizaram fotograficamente – parte delas ficou fixada apenas em sua memória e outra parte se transformou em relevantes documentos iconográficos da história do Brasil.

Impossível conhecer alguns do principais momentos da história da nossa fotografia e do nosso país sem passar por algumas de suas imagens, como por exemplo, o primeiro Prêmio Esso de Fotojornalismo, a moda de Denner e Clodovil, o milésimo gol do Pelé, a inauguração de Brasília, as primeiras corridas no Autódromo de Interlagos, a demarcação territorial brasileira no Pólo Sul, a construção da rodovia Belém-Brasília, o Estúdio Abril de Fotografia, entre muitos outros significativos flagrantes que configuram a trajetória de um dos mais aguerridos profissionais: Sérgio Jorge.

Ele foi atraído pela fotografia sinestesicamente, ou seja, primeiro pelos olhos e em seguida pelo olfato e pelo tato. Sim, o cheiro dos químicos do laboratório e o trabalho artesanal de revelação contaminaram suas decisões ao escolher sua profissão. Afinal, naquele momento, a fotografia parecia muito mais dinâmica e divertida do que a possibilidade de se tornar um sério advogado como seu pai.

O primeiro trabalho foi na Casa Fotográfica de Elisário de Castro Negrão, seu mentor, em Amparo, sua cidade natal. Na penumbra do laboratório não só aprendeu os primeiros segredos da magia fotográfica como também foi atravessado por uma energia que modificou seu olhar diante das cenas do cotidiano. Tempos depois, ao chegar em São Paulo, esse olhar alterado, associado ao seu estilo e técnica, começa a adquirir uma sintaxe própria.

A cidade despertava novas ambições e gerava expectativas diversas. Nessa agitação descobre o pulsar da redação do jornal O Dia – seu primeiro emprego como profissional – onde dezenas de máquinas de escrever, somadas aos ruídos das linotipos e das rotativas, estão sintonizadas com o ritmo frenético da efervescente metrópole. Sua atividade como fotógrafo passa a ser pontuada por esse desejo de estar sempre em movimento e de ampliar a visibilidade do seu trabalho como repórter fotográfico. Em poucos meses sua constante atividade foi notada pelos profissionais dos jornais A Gazeta e A Gazeta Esportiva, para onde se transferiu a convite.

Tornou-se uma espécie de cronista visual do período desenvolvendo um trabalho marcante e de grande ressonância, seja pela liberdade no enquadramento, seja pela intensa curiosidade. Passa a ser respeitado pelos fotógrafos da velha guarda da imprensa paulistana e integra uma nova geração que nasce exatamente no final dos anos 1950. Jovem, reconhecido tecnicamente e bastante agitado começa a preencher seu tempo livre com pautas inventivas para a revista Manchete, onde se torna um requisitado free lancer.

Uma das suas mais incríveis experiências de menino do interior foi quando teve seu cão preso pelo homem da carrocinha, salvo graças à intervenção de seu pai, que conseguiu imediata devolução. Pois foi essa mesma vivência reacendida em sua memória que lhe permitiu criar uma narrativa visual tão emocionante que se transformou no primeiro Prêmio Esso de Fotojornalismo, em 1960, categoria inexistente até aquela edição do prêmio destinado para consagrar as principais matérias publicadas na mídia impressa do país. Esse é o primeiro momento de explosão profissional na trajetória de Sérgio Jorge. Essas fotografias foram publicadas em 36 revistas e jornais de todo o mundo. O menino simples e curioso de Amparo torna-se um repórter celebrado internacionalmente. Uma consagração!

Desde então Sérgio Jorge não parou mais de fotografar: repórter das revistas Manchete e Fatos & Fotos, Diretor do Estúdio Abril – onde foi responsável pela formação de inúmeros jovens, hoje profissionais reconhecidos e atuantes no mercado – e renomado fotógrafo publicitário que atende grandes agências de publicidade e empresas nacionais e multinacionais. Sua trajetória múltipla é sintonizada técnica e esteticamente com seu tempo. Seu acervo reúne mais de 60 mil fotografias e documentam um período de quase seis décadas de grandes transformações sociais, políticas e culturais do país. Sérgio Jorge garante que viveu tudo com muita alegria e emoção. Quando lembra da importância que a imagem tem sua vida costuma manter a mesma sinceridade daquele menino que um dia descobriu um novo e mágico mundo no laboratório do velho Negrão, em Amparo: “entendo que toda fotografia é uma vitória e, como a luz vermelha do laboratório, ela se transformou no sangue que corre em minhas veias”.

Rubens Fernandes Junior é paulista e  pesquisador e curador independente de fotografia. É Professor e Diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. É Curador do Prêmio Fundação Conrado Wessel de Fotografia. É membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Como diretor do NAFOTO – Núcleo dos Amigos da Fotografia – realizou dez edições do Mês Internacional de Fotografia de São Paulo entre 1993 e 2011. 

Crédito da foto: Reginaldo Leme

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